Vilhelm Hammershøi/ Rest,1985.
Estou doente para morte, (ou seria para vida?) é do que se trata esse conto, minha carne está podre e ficando mais podre, o que popularmente se chama de câncer, meu signo!
Tudo isso é ridículo, continuo absolutamente eu mesma, nenhuma revelação fantástica da vida chegou a mim como recompensa por estar morrendo.
Deixarei aqui meu filho, filho da minha carne sã e minha filha, filha da minha carne sã, deixarei também o pai deles que já não é nada meu.Amigos?Não acho que tenho.
Não vou me maquiar para essa última festa de aniversário, pois tornaria tudo ainda mais decadente, como um velório antecipado, quem tiver coragem de vir que se satisfaça em ver a doença no meu rosto, pois isso é apenas um ensaio, tenho certeza que no meu velório estarei perfeita, como uma boneca de porcelana, usando a máscara de um anjo que dorme, apenas umas pitadas de humanidade aqui e ali,para que não esqueçam que estou morta.
Estou cansada, não posso me dar ao luxo de pensar muito, os pensamentos me fadigam, me levanto da penteadeira e caminho lentamente para sala, quero estar ali antes de todos.
Meus filhos já crescidos olham para mim, meu menino mirando e não vendo, minha menina vendo e investigando, os dois me abraçam como se agarrassem uma corda, parecem me puxar para baixo. A campainha toca desmanchando o abraço , eu sorrio tranquilizando os dois:
"Então meus amores, vamos começar a festa? ".








