17/08/2020

Ensaio



Rest 1985

Vilhelm Hammershøi/ Rest,1985.



Estou doente para morte, (ou seria para vida?) é do que se trata esse conto, minha carne está podre e ficando mais podre, o que popularmente se chama de câncer, meu signo!

Tudo isso é ridículo, continuo absolutamente eu mesma, nenhuma revelação fantástica da vida  chegou a mim como recompensa por estar morrendo. 

Deixarei aqui meu filho, filho da minha carne sã e minha filha, filha da minha carne sã, deixarei também o pai deles que já não é nada meu.Amigos?Não acho que tenho.

Não vou me maquiar para essa última festa de aniversário, pois tornaria tudo ainda mais decadente, como um velório antecipado, quem tiver coragem de vir que se satisfaça em ver a doença no meu rosto, pois isso é apenas um ensaio, tenho certeza que no meu velório estarei perfeita, como uma boneca de porcelana, usando a máscara de um anjo que dorme, apenas umas pitadas de humanidade aqui e ali,para que não esqueçam que estou morta.

Estou cansada, não posso me dar ao luxo de pensar muito, os pensamentos me fadigam, me levanto da penteadeira e caminho lentamente para sala, quero estar ali antes de todos.

Meus filhos já crescidos olham para mim, meu menino mirando e não vendo, minha menina vendo e investigando, os dois me abraçam  como se agarrassem uma corda, parecem me puxar para baixo. A campainha toca desmanchando o abraço , eu sorrio tranquilizando os dois:

"Então meus amores, vamos começar a festa? ".

14/08/2020

Resenha Feita Para Iletrados

 




Autora: Karine Tavares

Editora: Penalux

Ano: 2015

Pág: 81






Achei a Karine através das redes sociais, por acaso,  numa das minhas "andanças pelo Google", nem sabia que ela era da minha cidade, na verdade como Itaborai é um lugar  pequeno eu nem sabia que havia escritores, mas estamos em todos os lugares... O livro Feita Para Iletrados é o primeiro da autora,uma obra muito forte e delicada ao mesmo tempo, falando sobre solidão,a  fugacidade do amor e da vida.Tive oportunidade de participar de uma conversa com Karine no grupo de leitura Leia Mulheres (saudades) na qual discutimos seus dois livros o Feita... e o Casa de Carne.

Um de poesia e outro de prosa os dois igualmente bons e os dois igualmente poéticos, a escrita da Karine tem uma sonoridade e uma fluência fácil de acompanhar e,  digamos, muito gostosa tanto pra quem curte ler poesia, quanto pra quem não está habituado.

Eu particularmente gostei muito das frases pequenas e certeiras que foram distribuídas no livro, me identifiquei demais com muitas dessas frases e com muitos dos poemas em geral, houve casos em que o poema "me leu".

Com toda certeza é um livro que indico, ele pode se devorado em um dia porque é muito apetitoso apesar de muito pequeno é que aquele livro que a gente termina e logo quer recomeçar.


Agora alguns "tira-gosto", como diria minha vó só para vocês terem um gostinhodo livro (rsrs):


"Não sou objetiva. Difícil ser direta com uma alma que exige 

sempre preposição". 


"Desculpe o engano.

Gotejou e eu achei que era oceano".


"Esta éuma carta de abandono

Do ser abandonado e ponto(...)"


Algumas informações sobre a autora:


Karine Tavares nasceu em Itaboraí, região metropolitana do Rio de Janeiro, em 1986. Professora. Advogada. Leitora. Escritora. Encontrou nas redes sociais um caminho de tornar público que escrevia e com este primeiro livro, materializa seu lado mais sensível.

Redes sociais: https://m.facebook.com/karine.tavares.7121.

https://www.instagram.com/feitaparailetrados/?hl=pt-br.


Então por hoje é isso gente, acompanhem a Karine nas redes,prestigiem os escritores nacionais é preciso estar "atento e forte" nesse momento...Espero que tenham gostado de conhecer o livro e agradeço pelo tempo, (um bem precioso) um abraço.


Té mais!

10/08/2020

Por hoje um poema



Perdi o Hábito  por  Karine Tavares  


Perdi o hábito de escrever cartas.  

Afinal,hoje, às palavras são tão raras 

Neste espaço oco do meu pensamento. 

Ando na chuva conformado e paciente.

Não vejo graça. Sinto frio. Mas caminho

Enquanto penso: onde o mundo se perdeu?

Me perdi eu, nos meus delírios não febris. 

Que me atormentam da manhã ao travesseiro.  

Peço que calem enquanto eu vejo informação,

Ainda me valem quando necessito choro. 

Não tenho amigos nem salário que me animem.  

Filhos não tive, porque não gosto de gente. 

Você bem sabe que eu não vejo poesia.

Não sou você com seus olhos infantis, 

Que quer tocar tudo o que a mente imagina, 

Conhecer o mundo e amar até que morra!  

Apenas vivo como me permite a vida. 

Não tenho bichos porque gosto de silêncio. 

Amores tive, mas deixei que esvaíssem.

Entre a infância e o rosto que vejo no espelho  

Não sinto nada, nem remorso nem saudade. 

Hoje cultivo o meu leve desespero  

De disfarçar eventuais sinais da idade.

Penso em você enquanto tomo o café  

Habitual, tonalizando o fim de tarde. 

E agradeço a preocupação que teve. 

Caso eu volte a adoecer, logo aviso.  

Caso contrário continuo, em silêncio,  

Vendo a matéria da ampulheta se esgotar.  

Mando um abraço comedido e educado.  

Tomara cresçam os seus olhos infantis. 


*Livro Feita Para Iletrados 


Oi gente! Como vocês estão? Estava sem ideias do que escrever para hoje, então resolvi postar um poema da Karine já que irei resenhar esse livro na sexta-feira, na resenha vou contar mais detalhes sobre a autora e sobre o livro.

Té mais! 

31/07/2020

Resenha O Olho Mais Azul

Livros sobre racismo




Autora: Toni Morrison

Editora: TAG Curadoria / Companhia das Letras  

Páginas: 226

Sinopse: “Como aceitar sua identidade num mundo que não parece ter sido feito para você? Todas as noites Pecola Breedlove reza para ter olhos azuis. Zombada pelas outras crianças por sua pele negra e seu cabelo crespo, a menina anseia por se encaixar no padrão de beleza da sociedade americana dos anos 1940: quer ser branca e loira, assim como a atriz mirim Shirley Temple. No entanto, à medida que cresce seu delirante e inconsciente desejo de aceitação, Pecola se vê presa a uma realidade cada vez mais violenta. Primeiro romance de Toni Morrison, vencedora do Nobel de Literatura de 1993, O olho mais azul é uma poderosa reflexão sobre raça, desigualdade e o peso esmagador da história.”



Esse livro ganharia meu troféu “Soco no Estômago”, pois, tive muita dificuldade de ler, não pela escrita, mas sim pelo enredo e a forma que vamos entrando na história, O Olho Mais Azul fala sobre racismo, padrões de beleza, sexismo entre outras coisas que por vezes preferimos ignorar, no meu caso coisas que às vezes prefiro fingir que não me atingem, afinal, mulheres negras nesse mundo tem que ser fortes não é mesmo? Mais que obrigação é uma necessidade para não sucumbir à loucura, melancolia ou a desesperança. É muito difícil fazer uma resenha desse livro, como abordar todas as suas nuances? Como avisar sobre os possíveis gatilhos que a história pode ter? Um livro tão pequeno e tão potente.

A história de uma menina negra e sua trajetória até a loucura. Pecola Breedlove tem sua vida narrada a partir de olhares de terceiros, ela não tem voz, tem de seu apenas um desejo intenso e inviável: Pecola quer ter olhos azuis,os mais azuis possíveis. A narradora mais frequente nesse livro é a Cláudia, outra menina negra que conhece Pecola da escola e é pelos olhos dela (a maior parte do tempo) que enxergamos a história da protagonista.  

Na minha visão o principal tema de O Olho Mais Azul é a solidão que o racismo causa, é uma solidão diferente, a solidão de uma imagem que te precede e que não te é possível mudar. É uma solidão cruel, profunda e que mata. 

Acho que por trás desse desejo de ter os “Olhos mais azuis “ de Pecola reside o desejo de ser amada de ser vista,além dos estereótipos de aparência o mais triste nessa história é ver que sem o mínimo de afeto familiar fica difícil para uma criança  compreender que ela é,muito além do que a sociedade dita. 

Enfim, nem sei mais o que escrever só posso dizer que esse é um livro necessário e avisar que ele têm seus gatilhos,então se você não está numa “vibe” muito boa seria bom adiar a leitura.   


Se você já leu o livro, comenta aqui embaixo o que achou, gostaria muito de conversar sobre ele. 

Um abraço e té mais! 

27/07/2020

Ruído Mudo


https://unsplash.com/@spaceboy



Chovia. Eu mal sentia o cheiro de terra molhada do qual tanto gostei na infância as gotas de chuva esmurrando as janelas, e o meu menino na cama tremendo. Mesmo morando em uma parte do país na qual raramente chove aconteceu ontem, aconteceu hoje, oh Deus por favor que não aconteça amanhã! Não me esqueço da primeira vez e o barulho da água apenas refresca a memória uma ferida aberta no meu chão de mato verde.

Meu menino e eu na rua, ele uma vida tão pequenina tão dependente de mim, pensei que poderia guardá-lo como fazia com minhas bonecas. A primeira gota pingou no meu nariz e o ser nos meus braços estremeceu, gritou como nunca havia gritado, não chorou, apenas aquele grito molhado rasgado desesperado. Eu corri meu corpo me disse para fazê-lo.

A porta de casa fechada me deu desespero tirei a chave do bolso e a abri com minha mão direita, meu menino ainda estremecia mas não gritava mais, lhe dei um banho morno, troquei sua roupa e o pus no berço ele silencioso respirava.Agora apenas uma mudez ruidosa,como posso sustentar seu medo,sendo eu ainda menos corajosa?

Agora ele mal cabe no meu colo e raramente o pede apenas fica embaixo das cobertas tremendo sem grito sem gemidos,as gotas não tem dúvidas e batem no teto nas janelas e no asfalto do que afinal ele tem medo?Talvez apenas de desfazer-se.

24/07/2020

Claros Sinais de Loucura

Livros Para Adolescentes


Autora: Karen Harrington 
Editora: Intrínseca 
Páginas: 254 
Ano: 2013   

Sinopse: Você nunca conheceu ninguém como Sarah Nelson. Enquanto a maioria dos amigos adora Harry Potter, ela passa o tempo escrevendo cartas para Atticus Finch, o advogado de O sol é para todos. Coleciona palavras-problema em um diário, tem uma planta como melhor amiga e vive tentando achar em si mesma sinais de que está ficando louca. 
Não é à toa: a mãe tentou afogá-la e ao irmão quando eles tinham apenas dois anos, e desde então mora em uma instituição psiquiátrica. O pai, professor, tornou-se alcoólatra. Fugindo da notoriedade do crime, ele e Sarah já se mudaram de diversas cidades, e a menina jamais se sentiu em casa em nenhuma delas. 
Com a chegada do verão em que completa doze anos, ela está cada vez mais apreensiva. Sente falta de um pai mais presente e das experiências que não viveu com a mãe, já se acha grande demais para passar as férias na casa dos avós, está preocupada com a árvore genealógica que fará na escola e ansiosa pelo primeiro beijo de língua que ainda não aconteceu. 
Mas a vida não pode ser só de preocupações, e, entre uma descoberta e outra, Sarah vai perceber que seu verão tem tudo para ser muito mais. Bem como seu futuro.     


Sarah procura os menores sinais de loucura,de que ela possa vir a acabar como a mãe e acha que seus sentimentos confusos e pensamentos bagunçados são sinais de que ela vai ficar louca.   


"Descobri que é preciso escolher ter coragem  todos os dias,como se escolhe a camisa que vai vestir.Não é automático".  


Essa personagem de início me parece meio melodramática,mas Sarah é muito cativante e o que eu mais gosto no livro é o fato de ela ir amadurecendo nitidamente ao decorrer da leitura,deixando aquela menininha dramática do início do livro.O que eu amo nesse tipo de livro é a narrativa infantil,mas ao mesmo tempo autêntica e totalmente transparente aquilo que dizem ser sabedoria infantil.  


"Depois que algo muda na sua vida,é melhor esperar por mais mudanças.É como derrubar o primeiro dominó.As outras peças não podem fazer nada só cair onde estão".  


É um começo de adolescência bem difícil para Sarah ela não tem amigos com quem compartilhar o problema da mãe principalmente porque tem medo de que a julguem e se afastem como outras pessoas que já descobriram esse segredo.  


"É isso o que eu sou.Uma cripta de segredos.Eles se agitam dentro do meu peito como pássaros engaiolados que querem fugir,mas têm medo de voar".  


Quando Sarah já ganha um pouco mais mais de maturidade,ele começa a vê que o que antes ele considerava grandes problemas,agora não passam de incômodos como o problema do primeiro beijo.  


"Pessoalmente,eu ia preferir que um garoto percebesse qual livro eu estava lendo e me dissesse que também tinha gostado.Isso me parece um sinal melhor de carinho do que um beijo".  


Eu amo livros que terminam com uma perspectiva de esperança ,que não tem o final em que tudo termina perfeito,mas com uma possibilidade de dias melhores,que as pessoas que a gente ama nem sempre serão perfeitas,mas quando se tem amor se supera muita coisa. 


21/07/2020

Uma Crônica de Clarice Lispector e seu Dia de Ira





DIES IRAE 

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração.

 E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera. 

Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer. – Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Teresa que ficou muito contente de eu me lembrar dela. Lembro-me: era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. Que muitos têm acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte porque também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Teresa, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim. 

Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim. No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. E outro telefonema veio: de uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. É a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera. 

Teresa, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada. Hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.  


Destaque

Resenha: Norwegian Wood

Autor : Haruki Murakami Editora: Alfaguara Ano :  1987/ 2008 Páginas : 360 Sinopse: Neste romance que alçou Murakami à condição de ícone...

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